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PROGRAMA MAIS MÉDICOS · UNA-SUS
Projeto de Intervenção
Especialização em Atenção Básica · Medicina de Família e Comunidade

Ampliar o acesso e o vínculo no cuidado à população em situação de rua.

Estratégias para ampliar a adesão ao acompanhamento de usuários em situação de vulnerabilidade social pela Equipe de Saúde da Família da Clínica da Família Sousa Marques, em articulação com o Consultório na Rua.

Leizéili Rodrigues Araújo
Orientadora: Mariana Luiza Lewergger Borges
CF Sousa Marques · CAP 3.3 · Rio de Janeiro
2026
0
Pessoas em situação de rua no Brasil (Censo 2022)
0
No Rio de Janeiro — 2º maior contingente do país
+93,6%
Crescimento do financiamento federal de equipes CNR
50%
Dos pacientes crônicos não aderem bem à terapia (WHO)
Resumo

O desafio da longitudinalidade na Atenção Primária à Saúde.

A longitudinalidade é atributo essencial da APS, mas a baixa adesão ao acompanhamento regular compromete seu efeito sobre os desfechos clínicos — sobretudo entre usuários em situação de vulnerabilidade social. Este projeto de intervenção organiza a resposta da Clínica da Família Sousa Marques em etapas mensuráveis, com linha de base e meta explícita.

Situação

População em situação de rua

O Censo 2022 do IBGE identificou 236.424 pessoas em situação de rua no Brasil; o Rio de Janeiro concentra o segundo maior contingente, atrás apenas de São Paulo, e acumula barreiras específicas de acesso e continuidade.

Resposta

ESF + Consultório na Rua

A PNAB prevê a articulação entre a Estratégia Saúde da Família e as equipes de CNR da Rede de Atenção Psicossocial, com metodologia baseada em redução de danos, territorialismo e vínculo construído na própria rua.

Tese

Não é falta de vontade

A baixa adesão reflete menos indisposição do usuário e mais condições sociais, familiares e organizacionais. A análise exige olhar ampliado para os determinantes sociais da saúde.

Objetivos

Um objetivo geral, cinco específicos, um impacto mensurável.

Objetivo geral

Ampliar a adesão ao acompanhamento de usuários em situação de vulnerabilidade social pela equipe de Saúde da Família da CF Sousa Marques, por meio de estratégias de busca ativa, requalificação do acesso e articulação com o Consultório na Rua.

01 · Identificar

Até o 2º mês, mapear usuários com faltas frequentes, abandono ou condutas não realizadas e caracterizar as barreiras associadas.

02 · Busca ativa

Realizar busca ativa mensal via agentes comunitários de saúde e, quando indicado, visitas domiciliares.

03 · Articular

Estabelecer fluxo estruturado de comunicação e acompanhamento compartilhado com a equipe do Consultório na Rua.

04 · Qualificar

Qualificar as consultas de seguimento com escuta qualificada, metas pactuadas e Projeto Terapêutico Singular (PTS) nos casos complexos.

Metodologia

Projeto de intervenção em quatro etapas ao longo de 12 meses.

Abordagem qualiquantitativa na lógica do planejamento local e orientada ao problema. Não envolve coleta de dados identificáveis — dispensa apreciação por Comitê de Ética (Res. CNS nº 510/2016, inciso VII).

Plano de intervenção

Nove ações integradas para reconstruir o vínculo com o cuidado.

Identificação dos faltosos

Levantamento mensal de faltas consecutivas, condutas pendentes e abandono.

Busca ativa

Atuação dos ACS para localizar e estimular o retorno, com registro padronizado.

Escuta qualificada

Identificar as dificuldades reais de comparecimento, sem juízo de valor, e pactuar alternativas.

Flexibilização do acesso

Reagendamento facilitado, aproveitamento da presença espontânea e prioridade de agenda.

Fortalecimento do vínculo

Profissional de referência nos casos de maior vulnerabilidade, com continuidade intencional.

Articulação com o CNR

Fluxo formal de comunicação, identificação conjunta e plano terapêutico pactuado.

Educação em saúde

Orientações individuais e coletivas sobre doenças, tratamentos e prevenção.

Discussão multiprofissional

Casos complexos nas reuniões mensais, com definição coletiva de condutas.

Projeto Terapêutico Singular

Plano individualizado para usuários com múltiplas necessidades, com metas e responsáveis.

Mapa de atuação

O território da Clínica da Família Sousa Marques.

Localizada na região central do município do Rio de Janeiro, sob a Coordenação de Área Programática 3.3 (CAP 3.3), a CF Sousa Marques atende um território com presença significativa de população em vulnerabilidade social — o que torna a articulação ESF + Consultório na Rua estratégica para a qualificação do cuidado.

CAP 3.3 · Zona Central
Unidade de referência (CF) ESF / ACS no território Consultório na Rua
Coordenadoria

CAP 3.3

Área Programática 3.3 do município do Rio de Janeiro, região central, com presença significativa de população em situação de rua.

Unidade

CF Sousa Marques

Porta de entrada da APS no território, com equipes de Saúde da Família em atenção longitudinal.

Parceria

ESF + CNR

Fluxo formal de comunicação, identificação conjunta e acompanhamento compartilhado.

Foco

PSR

População em situação de rua com barreiras específicas de acesso e continuidade.

Evidências e dados

O cenário que sustenta a proposta.

Três figuras ancoram o projeto: a dimensão da população em situação de rua, a expansão federal das equipes de Consultório na Rua e o funil de metas da intervenção.

Figura 1

Municípios com maior população em situação de rua — Brasil, 2022

Fonte: IBGE (2024) · Censo 2022
São Paulo
22.665
Rio de Janeiro
9.555
Belo Horizonte
5.660
Salvador
5.017
Fortaleza
4.728
Manaus
4.248
Recife
4.066
Porto Alegre
3.796
Figura 2

Expansão das equipes de Consultório na Rua cofinanciadas pelo Ministério da Saúde

Fonte: Ministério da Saúde (2026)
173
dez/2022
335
mai/2026
Crescimento de +93,6% no financiamento federal de equipes CNR · investimento de R$ 144 mi em Unidades Móveis de Rua
Figura 3

Metas do projeto de intervenção — funil de reintegração ao acompanhamento

Fonte: elaboração do autor (2026)
Usuários faltosos identificados (base = 100)
100%
Reintegrados após busca ativa (meta 50%)
50%
Abandono reduzido (meta −30%)
70%
Vínculo com referência (metas pactuadas)
85%
Resultados esperados

Seis resultados esperados com indicadores de processo e desfecho.

−30%

Redução do abandono do acompanhamento ao final de 12 meses, sobre a linha de base.

≥50%

Reintegração dos usuários faltosos identificados após busca ativa estruturada.

Fluxo formal

Comunicação documentada entre ESF e CNR para usuários em situação de rua.

+Comparecimento

Ampliação do comparecimento às consultas programadas e das condutas resolvidas.

Equipe capacitada

Em escuta qualificada, busca ativa e elaboração de Projeto Terapêutico Singular.

Integralidade

Melhora da integralidade e da longitudinalidade da assistência no território.

Indicadores de monitoramento

Processo: nº de buscas ativas, visitas domiciliares, casos compartilhados com o CNR, % com escuta qualificada e frequência de reuniões. Desfecho: % de faltosos reintegrados, taxa de abandono, condutas resolvidas e comparecimento. Acompanhamento em reunião mensal de equipe.

Considerações finais

Reconstruir a longitudinalidade do cuidado para quem mais precisa dela.

A baixa adesão na Atenção Primária reflete menos a falta de disposição dos usuários e mais as condições sociais, familiares e organizacionais em que o cuidado precisa ocorrer. Este projeto organiza a resposta em etapas mensuráveis — busca ativa, escuta qualificada, vínculo e articulação com o Consultório na Rua — factível com os recursos da própria equipe e replicável a territórios de perfil semelhante. A janela de oportunidade é concreta: a PNAB em vigência para 2026 reafirma a busca ativa e o cuidado às populações vulneráveis como prioridades da APS, e o Ministério da Saúde expande as equipes de CNR de 173 para 335 em todo o país. Mais do que aumentar o comparecimento, trata-se de garantir que a porta de entrada do SUS seja, também, porta de continuidade.

Referências

Base bibliográfica e normativa.

BRASIL. Lei nº 13.958, de 15 de dezembro de 2020. Programa Mais Médicos para o Brasil. Diário Oficial da União, 2020.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: MS, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Manual sobre o cuidado à saúde junto à população em situação de rua 2012-2013. Brasília: MS, 2012.
BRASIL. Ministério da Saúde. Consultório na Rua: manual do(a) profissional de saúde. Brasília: MS, 2013.
BRASIL. Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Básica nº 34: Saúde Mental. Brasília: MS, 2013.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS (HumanizaSUS). Brasília: MS, 2010.
BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução CNS nº 510, de 7 de abril de 2016. Brasília: CNS, 2016.
BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Mais Médicos para o Brasil: diretrizes e operacionalização. Brasília: MS, 2013.
IBGE. Censo Nacional da População em Situação de Rua 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. Disponível em: ibge.gov.br/censo-nacional-pop-rua.
STARFIELD, B.; SHI, L.; MACINKO, J. Contribution of primary care to health systems and health. The Milbank Quarterly, v. 83, n. 3, p. 457-502, 2005.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva: WHO, 2003.
RIO DE JANEIRO. Secretaria Municipal de Saúde. Plano Municipal de Saúde e áreas programáticas: CAP 3.3. Rio de Janeiro: SMS-RJ, 2024.